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Petróleo: Trump anunciou bloqueio naval ao Irão e abriu as portas a novo frenesi nos mercados energéticos

Petróleo: Trump anunciou bloqueio naval ao Irão e abriu as portas a novo frenesi nos mercados energéticos

Quando os mercados fecharam na sexta-feira, o mundo vivia um momento de alívio, ainda com o anúncio de um cessar-fogo entre os EUA e o Irão a servir de diapasão para o ritmo dos gráficos... mas tudo mudou já na manhã de Domingo, 11. E foi agora, na manhã desta segunda-feira, ainda na Ásia, onde os mercados abrem primeiro, a acompanhar o renascer do sol a oriente, que os mercados energéticos voltaram a ser sobressaltados com a publicação de Donald Trump... ... na sua rede social, a Truth Social, onde informou o mundo que a marinha dos Estados Unidos da América ia, já a partir das 15:00, hora de Luanda, 14.00 GMT, impedir o acesso ao Estreito de Ormuz de qualquer embarcação com destino aos portos iranianos ou deles proveniente. O que, no fim de contas, é um choque frontal com aquilo que Donald Trump entende como melhor para a economia dos EUA, porque, ainda há duas semanas, levantou as sanções ao petróleo iraniano porque considerada isso vital para reduzir o impacto do conflito nos preços da energia e a subsequente inflamação da economia dos EUA. Agora, numa reviravolta que vários analistas estão a ter dificuldades em explicar, como John Mearsheimer, um dos maiores especialistas do mundo em geopolítica e geoestratégia, professor da Universidade de Chicago, que aponta como razão para esta medida "uma falha de reflexão sobre as suas consequências no futuro breve" e uma acto que teve como consideração única pressionar Teerão retirando-lhe a sua principal fonte de receitas. Embora, provavelmente Trump esteja a considerar que os EUA, que são, efectivamente, o maior produtor de crude e gás mundial, possam substituir a energia iraniana que deixará de chegar aos mercados, porquanto, ainda na sexta-feira anunciava que muitos petroleiros estavam a caminho para encher os tanques com o "maravilhoso e doce crude americano". Esta flamejante medida de Trump surge logo após o anúncio do falhanço das conversações de paz entre EUA e Irão, em Islamabad, capital do Paquistão, no fim-de-semana, onde os dois países não chegaram a um entendimento sobre duas questões fulcrais: o programa nuclear de Teerão e o controlo do Estreito de Ormuz. (ver aqui) Para já, o primeiro efeito desta medida de Washington foi gerar uma reacção ruidosa da Guarda Revolucionária do Irão (IRGC) que avisou tratar-se de "um acto de pirataria" aquilo que Trump anunciou e deixou um aviso sério à navegação: "Se os navios americano se aproximarem das costas iranianas, isso será uma flagrante violação do cessar-fogo", que é o mesmo que dizer que serão atacados. O que parece ser assim uma inevitabilidade visto que os EUA só podem efectivar o bloqueio se aproximarem os seus navios de guerra ao Estreito de Ormuz, ficando ao alcance dos misseis iranianos... um estreito alargado para o regresso da guerra. É neste contexto que o barril de Brent, referência principal para as ramas exportadas por Angola, estava esta segunda-feira, 13, perto das 11:40, hora de Luanda, a valer 103,1 USD, uma subida de quase 8%, sendo muito semelhante ao WTI, de Nova Iorque, que estava a valer, à mesma hora, 104,2 USD. Perante a periclitância deste contexto, como todos os países exportadores e com economias petrodependentes, Angola está numa natural expectativa para ver como correm os dias, ou horas, que se seguem. Angola soma ganhos, mas... O actual cenário internacional tende ainda a manter os preços acima do valor estimado pelo Governo angolano para o OGE 2026, que contempla um ajustamento em baixa deste valor, 61 USD, em relação aos 70 USD de 2025, que compara ainda com os actuais 102 USD, no vaso do Brent, perto de 43 USD acima do OGE do ano corrente. O que pode ser uma faca de dois gumes, porque se o país obtém mais rendimentos deste sector, é igualmente verdade que, enquanto grande importador, especialmente de bens alimentares e refinados do petróleo, esse impacto vai ser fortemente sentido nas contas nacionais de forma igual aos restantes com as mesmas características e perfil económico. Angola é, por isso, um dos países mais atentos a estas oscilações devido à sua conhecida dependência das receitas petrolíferas, e a importância que estas têm para lidar com a grave crise económica que atravessa, especialmente nas dimensões inflacionista e cambial. Isto, porque o crude ainda responde por cerca de 90% das exportações angolanas, 35% do PIB nacional e 60% das receitas fiscais do país, o que faz deste sector não apenas importante mas estratégico para o Executivo. O Governo deposita esperança, no curto e médio prazo, de conseguir o objectivo de aumentar a produção nacional, uma das razões por que abandonou a OPEP em 2023, actualmente abaixo de 1 mbpd, gerando mais receita no sector de forma a, como, por exemplo, está a ser feito há anos em países como a Arábia Saudita ou os EAU, usar o dinheiro do petróleo para libertar a economia nacional da dependência do... petróleo. O aumento da produção nacional, cujo potencial cresceu significativamente já este ano com o anúncio da TotalEnergies de uma grande descoberta com potencial de 500 mb, não está a ser travada por falta de potencial, porque as reservas estimadas são de nove mil milhões de barris e já foi superior a 1,8 mbpd há pouco mais de uma década, o problema é claramente o desinvestimento das majors a operar no país. Aliás, o Governo de João Lourenço tem ainda como motivo de preocupação uma continuada e prevista redução da produção de petróleo, que se estima que seja na ordem dos 20% na próxima década, estando actualmente â beira de 1 milhão de barris por dia (mbpd), muito longe do seu máximo histórico de 1,8 mbpd em 2008. Por detrás desta quebra, entre outros factores, o desinvestimento em toda a extensão do sector, deste a pesquisa à manutenção, quando se sabe que o offshore nacional, com os campos a funcionar, está em declínio há vários anos devido ao seu envelhecimento, ou seja, devido à sua perda de crude para extrair e as multinacionais não estão a demonstrar o interesse das últimas décadas em apostar no país. A questão da urgente transição energética, devido às alterações climáticas, com os combustíveis fosseis a serem os maus da fita, é outro factor que está a esfumar a importância do sector petrolífero em Angola.

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