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Petróleo: O barril fez de Ícaro e, como na fábula, deu-se mal, caindo, queimado pela ambição, antes de chegar ao sol
Ao analisar as notícias de hoje nos sites e agências especializadas, percebe-se que Ícaro, ou melhor, o barril de Brent, como no mito grego, tinha mais olhos que barriga e na ânsia de chegar ao sol, ou melhor, aos 110 USD, deixou que a ambição lhe matasse os sonhos.
Porque depois de chegar aos 109 USD, muito, muito perto do objectivo do voo, as altas temperaturas geradas pelas declarações do Presidente norte-americano, qual astro solar, queimaram-lhe as asas e foi a pique que, como o jovem e ambicioso ateniense, se estatelou no Mar Egeu dos 90 dólares.
Por exemplo, The Guardian, um dos mais proeminentes contadores de mitos da actualidade, refere que esta queda do Ícaro fóssil que move a economia global, é a mais acentuada em cerca de um ano, perdendo quase 10 USD entre 15 e hoje, 23 de Setembro.
E porquê? Como as coisas estão nestes últimos meses, desde que os EUA e Israel, sob ordens dos "cronistas" Donald Trump e Benjamin Netanyahu atacaram o Irão a 28 de Fevereiro, é mais fácil perceber a mitologia grega que os mercados energéticos.
Mas, a haver uma explicação para esta abrupta perda de valor, quando tudo indica que devia estar a acontecer o contrário, por causa das guerras na Ucrânia, na Península Arábica e no Golfo Pérsico, ela está no "Sol" que governa a Casa Branca.
É que Donald Trump, pouco antes de subir ao púlpito da Assembleia-Geral da ONU, na terça-feira, 22, ontem, anunciou ao mundo que estava de novo com um dedo no botão vermelho para "aniquilar a República Islâmica" e o outro na caneta com que pode assinar um acordo com o Irão ainda esta semana, em Nova Iorque...
... para onde viajou também o Presidente iraniano, Massoud Pezeshkian, com um visto concedido pelo país com que está em guerra, e com quem Trump se pode encontrar a qualquer momento, depois de delegações dos dois países terem estado a falar por três horas.
Tal cenário de um possível acordo não é novidade, porque o próprio "Sol" da Casa Branca repete amiúde que "o Irão quer um acordo com toda a forçam e rapidamente", embora sempre mostrando o dedo no gatilho.
Mas é claro que, tal como Ícaro, que acreditava poder alcançar o sol com as asas que o seu pai, Dédalo, lhe construiu usando cera de abelha, também os analistas dos mercados petrolíferos estão desejosos de que desta vez Donald Trump, por uma vez que seja, esteja a falar verdade.
E com isto, fábulas e mitos à parte, a verdade é que para os países com economias mais petrodependentes, como a angolana, seria expectável estar neste momento com o barril a atingir os 120 USD, no caso do Brent, e não a descer para as catacumbas dos dois dígitos.
E não seria para menos, não apenas porque os dos Estreitos de Ormuz (Golfo Pérsico) e Bab al-Mandeb (Mar Vermelho/Canal do Suez) estão fechados pelos conflitos dos EUA com o Irão e da AnsarAllah, do Iémen, com apioo iraniano, e com as forças estatais apoiadas pela Arábia Saudita...
... também porque estas guerras, às quais se soma a da Ucrânia, têm como palco das suas batalhas refinarias, algumas destas entre as maiores do mundo, cuja persistente situação de off line está a secar de gasóleo e jet fuel o mundo inteiro...
Com até 20 milhões de barris fora do mercado e dezenas de refinarias fora de serviço, é natural que se pense imediatamente num equilíbrio bizarro e raro, mas a realidade, como explicam alguns analistas, entre estes Jeffrey Currie, antigo quadro da Goldman Sachs, os mercados deviam era estar já a pensar no que vai custar e demorar regressar à normalidade.
Perante este cenário, raro e estranho, quase "mágico", quem sabe se, afinal, Ícaro atinge mesmo o sol, o do firmamento, não o "sol" da Casa Branca, porque, depois da longa queda, o barril está hoje, perto das 09:10, hora de Luanda, nesta quarta-feira, 23, a valer 99,4 USD, uma subida de 0,21%, pouco expressiva, mas a mostrar um novo fôlego do ambicioso jovem ateniense da mitologia grega.
E se o Presidente do Irão sair de Nova Iorque sem que tenha deixado pelo menos as "asas" para que seja possível voar de encontro a um acordo sólido em breve entre Irão e EUA, provavelmente, por mais crédulos que sejam, os analistas dos mercados petrolíferos poderão ser obrigados a tirar o pé do travão e deixar a narrativa histórica destes tempos seguir a sua marcha rumo ao desconhecido.
Angola soma ganhos...
O actual cenário internacional tende claramente a manter os preços acima do valor estimado pelo Governo angolano para o OGE 2026, 61 USD, que compara com os actuais 99 USD, no caso do Brent, cerca de 38 USD acima desse valor.
Angola é, por isso, um dos países mais atentos a estas oscilações devido à sua conhecida dependência das receitas petrolíferas, e a importância que estas têm para lidar com a grave crise económica que atravessa, especialmente nas dimensões inflacionista e cambial.
Isto, porque o crude ainda responde por cerca de 90% das exportações angolanas, 35% do PIB nacional e 60% das receitas fiscais do país, o que faz deste sector não apenas importante mas estratégico para o Executivo.
O Governo deposita esperança, no curto e médio prazo, de conseguir o objectivo de aumentar a produção nacional, uma das razões por que abandonou a OPEP em 2023, actualmente abaixo de 1 mbpd, gerando mais receita no sector de forma a, como, por exemplo, está a ser feito há anos em países como a Arábia Saudita ou os EAU, usar o dinheiro do petróleo para libertar a economia nacional da dependência do... petróleo.
O aumento da produção nacional, cujo potencial cresceu significativamente já este ano com o anúncio da TotalEnergies de uma grande descoberta com potencial de 500 mb, não está a ser travada por falta de potencial, porque as reservas estimadas são de nove mil milhões de barris e já foi superior a 1,8 mbpd há pouco mais de uma década, o problema é claramente o desinvestimento das majors a operar no país.
Aliás, o Governo de João Lourenço tem ainda como motivo de preocupação uma continuada e prevista redução da produção de petróleo, que se estima que seja na ordem dos 20% na próxima década, estando actualmente â beira de 1 milhão de barris por dia (mbpd), muito longe do seu máximo histórico de 1,8 mbpd em 2008
Por detrás desta quebra, entre outros factores, o desinvestimento em toda a extensão do sector, deste a pesquisa à manutenção, quando se sabe que o offshore nacional, com os campos a funcionar, está em declínio há vários anos devido ao seu envelhecimento, ou seja, devido à sua perda de crude para extrair e as multinacionais não estão a demonstrar o interesse das últimas décadas em apostar no país.
A questão da urgente transição energética, devido às alterações climáticas, com os combustíveis fosseis a serem os maus da fita, é outro factor que está a esfumar a importância do sector petrolífero em Angola.
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