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Petróleo: Barril de novo acima de 100 USD com ataques a navios no Estreito de Ormuz em pano de fundo
E o efeito nos gráficos que medem a pulsação do Médio Oriente foi imediato, com o barril de Brent a voltar a passar em alta a fasquia dos 100 USD, e o WTI, em Nova Iorque, a ultrapassar os 90 USD.
Isto, quando se esperava que os mercados arrefecessem substantivamente depois de se saber que o Presidente norte-americano, logo a seguir a ameaçar destruir todas as pontes e centrais eléctricas do Irão, recuou e anunciou que o cessar-fogo só termina quando o Irão apresentar uma proposta aceitável para acabar de vez com as hostilidades.
Os dois navios atacados pela marinha da Guarda Revolucionária do Irão, com pavilhão liberiano e panamiano, mas, segundo Teerão, ao serviço de interesses israelitas, foram levados para portos iranianos, no que está a ser visto como uma retaliação pelo ataque da marinha dos EUA a um navio iraniano com carga chinesa na segunda-feira.
O bloqueio a um acordo de cessar-fogo parece estar agora centrado no bloqueio naval norte-americano ao Irão e o bloqueio iraniano à navegação global que usa o Estreito de Ormuz.
E isso é o epicentro deste braço-de-ferro porque é por ali que passam 20% do gás e do crude mundiais, além de compostos vitais para 30% dos fertilizantes produzidos em todo o mundo, 30% do hélio essencial para a indústria 2.0 dos microchips, e quase 15% do alumínio, tudo matérias-primas que já estão a provocar problemas sérios nos quatro cantos do planeta.
Ao mesmo tempo que o Irão exige o levantamento do bloqueio dos americanos, em Washington Trump quer ver o Estreito de Ormuz aberto sem restrições, embora estas sejam apenas exigências cruciais para a questão dos mercados do crude e do LNG, porque os dois lados da barricada têm outras reivindicações não menos sérias (ver aqui).
Para já, na capital paquistanesa, Islamabad, mora a esperança de que este imbróglio global possa, finalmente, passar pelo estreito das condições de Teerão e Washington, naquilo que ainda não é certo que esteja para as próximas horas a próxima ronda negocial americo-iranianas com mediação do Paquistão.
O que pode estar para muito breve acreditando em Donald Trump, que disse esta quarta-feira, 22, ter recebido nota de que o Irão vai mesmo enviar a sua delegação a Islamabad, enquanto em Teerão se diz que tal só acontecerá quando os EUA levantarem o bloqueio naval.
O que pode acontecer assim que o Presidente norte-americano mande a marinha retirar os navios que estão ao serviço desse mesmo bloqueio. Assim fara ou não, só as próximas horas ou dias o dirão.
Certo, certo é que o barril de crude estava esta quarta-feira, 22, perto das 14:35, hora de Luanda, a valer 101,4 USD, uma subida de 1,6%, colocando este valor 40 dólares acima do preço indicativo usado pelo Executivo angolano para elaborar o OGE 2026.
Mas com tanta volatilidade, Angola, como de resto as restantes economias petrodependentes, tem, por estes dias, as atenções viradas para o desenvolvimento do conflito no Médio Oriente.
Angola soma ganhos, mas...
O actual cenário internacional tende ainda a manter os preços acima do valor estimado pelo Governo angolano para o OGE 2026, que contempla um ajustamento em baixa deste valor, 61 USD, em relação aos 70 USD de 2025, que compara ainda com os actuais 101 USD, perto de 39 USD acima do OGE do ano corrente.
O que pode ser uma faca de dois gumes, porque se o país obtém mais rendimentos deste sector, é igualmente verdade que, enquanto grande importador, especialmente de bens alimentares e refinados do petróleo, esse impacto vai ser fortemente sentido nas contas nacionais de forma igual aos restantes com as mesmas características e perfil económico.
Angola é, por isso, um dos países mais atentos a estas oscilações devido à sua conhecida dependência das receitas petrolíferas, e a importância que estas têm para lidar com a grave crise económica que atravessa, especialmente nas dimensões inflacionista e cambial.
Isto, porque o crude ainda responde por cerca de 90% das exportações angolanas, 35% do PIB nacional e 60% das receitas fiscais do país, o que faz deste sector não apenas importante mas estratégico para o Executivo.
O Governo deposita esperança, no curto e médio prazo, de conseguir o objectivo de aumentar a produção nacional, uma das razões por que abandonou a OPEP em 2023, actualmente abaixo de 1 mbpd, gerando mais receita no sector de forma a, como, por exemplo, está a ser feito há anos em países como a Arábia Saudita ou os EAU, usar o dinheiro do petróleo para libertar a economia nacional da dependência do... petróleo.
O aumento da produção nacional, cujo potencial cresceu significativamente já este ano com o anúncio da TotalEnergies de uma grande descoberta com potencial de 500 mb, não está a ser travada por falta de potencial, porque as reservas estimadas são de nove mil milhões de barris e já foi superior a 1,8 mbpd há pouco mais de uma década, o problema é claramente o desinvestimento das majors a operar no país.
Aliás, o Governo de João Lourenço tem ainda como motivo de preocupação uma continuada e prevista redução da produção de petróleo, que se estima que seja na ordem dos 20% na próxima década, estando actualmente â beira de 1 milhão de barris por dia (mbpd), muito longe do seu máximo histórico de 1,8 mbpd em 2008.
Por detrás desta quebra, entre outros factores, o desinvestimento em toda a extensão do sector, deste a pesquisa à manutenção, quando se sabe que o offshore nacional, com os campos a funcionar, está em declínio há vários anos devido ao seu envelhecimento, ou seja, devido à sua perda de crude para extrair e as multinacionais não estão a demonstrar o interesse das últimas décadas em apostar no país.
A questão da urgente transição energética, devido às alterações climáticas, com os combustíveis fosseis a serem os maus da fita, é outro factor que está a esfumar a importância do sector petrolífero em Angola.
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