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Petróleo: Barril aguenta pressão da Casa Branca e não desce dos 110 USD
O barril acima de 100 USD no WTI de Nova Iorque é um pesadelo para o Presidente Donald Trump, não apenas pelo impacto devastador na economia, como também pela forma como afecta negativamente as suas aspirações eleitorais em Novembro.
Com o aproximar das eleições intercalares, onde corre o risco de ver o seu Partido Republicano a perder as maiorias nas duas câmaras do Congresso, Representantes e Senado, Donald Trump tem repetido o mesmo "truque" uma após outras vez.
E tem quase sempre conseguido alguns ganhos ao anunciar vitórias sobre o Irão, ao anunciar cessar-fogo que não acontecem, ou, como desta vez, ao enviar o seu secretário da Guerra, Pete Hegseth, anunciar que o Estreito de Ormuz está livre para navegar.
O chefe do departamento da Guerra (Defesa) anunciou hoje que o "Projecto Liberdade" conseguiu abrir o Estreito de Ormuz, depois de dois meses fechado, bloqueando no Golfo Pérsico quase 20% do crude e do LNG mundiais, além de outras matérias-primas vitais.
E nos momentos seguintes às palavras optimistas de Hegseth, o barril de Brent, tal como o WTI, caíram perto de 2%, preambulando uma descida continuada e substancial, mas, menos de duas horas depois os mercados perceberam que era novo "truque" da Casa Branca.
E foi dessa forma que o Brent se ficou, após uma queda que chegou a ser de quase 3%, nos 111, 52 USD, perto das 14:20, hora de Luanda, perdendo 2,5% dos mais de 4% que tinha ganho na segunda-feira, 04, com a retoma da ameaça de regresso à guerra no Golfo Pérsico e os ataques ainda sem "paternidade" definida contra os Emiratos Árabes Unidos.
Em Nova Iorque o "terror" de Trump também não se esfumou nas palavras de Pete Hegseth, mantendo-se claramente acima dos 100 USD, nos 102,5 USD, abrindo igualmente o "paraquedas" quando ficou claro que o secretário da Guerra estava a exagerar no seu optimismo sobre o Estreito de Ormuz.
Com efeito, o Irão mantém a pressão da ameaça de ataque aos navios que atravessarem aquela passagem marítima estratégica entre o Golfo Pérsico e o Mar de Omã (Oceano Índico) e, como pode ser observado, em sites que mostram a navegação global, como o marinetraffic.com, a realidade é substantivamente diferente da descrita pelos norte-americanos.
O "Projecto Liberdade", desenhado pela Casa Branca para abrir Ormuz em definitivo, com o emprego de dezenas de navios de guerra, 100 aviões e 15 mil soldados, não está a conseguir fazer fluir o tráfego marítimo, embora algumas companhias tenham admitido que tentaram ou vão tentar a passagem por Ormuz sob a protecção dos "destroyers" dos EUA.
Além disso, o "nevoeiro" da guerra está a esconder a verdade de uma forma que não se viu ainda nestes dois meses passados desde que a coligação israelo-iraniana lançou o ataque contra o Irão a 28 de Fevereiro.
Isto, porque Washington nega que dois dos seus navios de guerra tenham sido atacados pelo Irão enquanto Teerão, além de recusar assumir a responsabilidade pelos ataques de ontem contra os Emiratos, acusa os EUA de terem destruído pequenas embarcações de pesca e de cabotagem matando cinco civis, contrariando a versão de Trump que se tratou de "lanchas rápidas" da Guarda Revolucionária.
Perante a imprevisibilidade deste contexto, como todos os países exportadores e com economias petrodependentes, Angola está numa natural expectativa para ver como correm os dias, ou horas, que se seguem.
Angola soma ganhos, mas...
O actual cenário internacional tende ainda a manter os preços acima do valor estimado pelo Governo angolano para o OGE 2026, que contempla um ajustamento em baixa deste valor, 61 USD, em relação aos 70 USD de 2025, que compara ainda com os actuais 111, 5 USD, no caso do Brent, perto de 53 USD acima do OGE do ano corrente.
O que pode ser uma faca de dois gumes, porque se o país obtém mais rendimentos deste sector, é igualmente verdade que, enquanto grande importador, especialmente de bens alimentares e refinados do petróleo, esse impacto vai ser fortemente sentido nas contas nacionais de forma igual aos restantes com as mesmas características e perfil económico.
Angola é, por isso, um dos países mais atentos a estas oscilações devido à sua conhecida dependência das receitas petrolíferas, e a importância que estas têm para lidar com a grave crise económica que atravessa, especialmente nas dimensões inflacionista e cambial.
Isto, porque o crude ainda responde por cerca de 90% das exportações angolanas, 35% do PIB nacional e 60% das receitas fiscais do país, o que faz deste sector não apenas importante mas estratégico para o Executivo.
O Governo deposita esperança, no curto e médio prazo, de conseguir o objectivo de aumentar a produção nacional, uma das razões por que abandonou a OPEP em 2023, actualmente abaixo de 1 mbpd, gerando mais receita no sector de forma a, como, por exemplo, está a ser feito há anos em países como a Arábia Saudita ou os EAU, usar o dinheiro do petróleo para libertar a economia nacional da dependência do... petróleo.
O aumento da produção nacional, cujo potencial cresceu significativamente já este ano com o anúncio da TotalEnergies de uma grande descoberta com potencial de 500 mb, não está a ser travada por falta de potencial, porque as reservas estimadas são de nove mil milhões de barris e já foi superior a 1,8 mbpd há pouco mais de uma década, o problema é claramente o desinvestimento das majors a operar no país.
Aliás, o Governo de João Lourenço tem ainda como motivo de preocupação uma continuada e prevista redução da produção de petróleo, que se estima que seja na ordem dos 20% na próxima década, estando actualmente â beira de 1 milhão de barris por dia (mbpd), muito longe do seu máximo histórico de 1,8 mbpd em 2008.
Por detrás desta quebra, entre outros factores, o desinvestimento em toda a extensão do sector, deste a pesquisa à manutenção, quando se sabe que o offshore nacional, com os campos a funcionar, está em declínio há vários anos devido ao seu envelhecimento, ou seja, devido à sua perda de crude para extrair e as multinacionais não estão a demonstrar o interesse das últimas décadas em apostar no país.
A questão da urgente transição energética, devido às alterações climáticas, com os combustíveis fosseis a serem os maus da fita, é outro factor que está a esfumar a importância do sector petrolífero em Angola.
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