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O metal que só dois países produzem e Angola quer ser o terceiro
Angola anunciou que vai iniciar “ainda este ano” a exploração de nióbio no município de Quilengues, na província da Huíla, um passo que colocará o país como o terceiro produtor mundial deste metal raro — e o primeiro em todo o continente africano. O anúncio foi feito pelo ministro dos Recursos Minerais, Petróleo e Gás, Diamantino Azevedo, à margem da cerimónia comemorativa dos 32 anos do bloco petrolífero 15, depois de uma visita de fim-de-semana ao Complexo Carbonatito de Bonga e Tchivira, onde o minério será extraído.
Poucos minerais no mundo têm uma concentração de mercado tão extrema como o nióbio. Actualmente, apenas dois países fornecem este metal à indústria global: o Brasil e o Canadá. Se o projecto angolano avançar como previsto, Angola tornar-se-á o terceiro país produtor à escala mundial — rompendo um duopólio que dura há décadas.
O nióbio não é um metal conhecido do grande público, mas está presente numa fatia surpreendente da infraestrutura industrial moderna. Adicionado em quantidades muito pequenas — normalmente menos de 0,1% — a ligas de aço, o nióbio aumenta de forma significativa a resistência mecânica do material, ao mesmo tempo que permite reduzir o seu peso sem comprometer a durabilidade. Esta propriedade torna-o essencial para os aços de alta resistência e baixa liga usados na construção de gasodutos, pontes, arranha-céus e automóveis mais leves e eficientes em termos de consumo de combustível.
Mas as aplicações do nióbio vão muito além da siderurgia. É um componente valioso em superligas usadas na indústria aeroespacial e em turbinas de aviões e motores a jacto, onde é essencial para suportar temperaturas extremas. É também utilizado em supercondutores, em equipamentos médicos como aparelhos de ressonância magnética, na indústria electrónica e, mais recentemente, começou a ganhar protagonismo numa nova fronteira tecnológica: a produção de baterias de recarga ultra-rápida. Fabricantes como a brasileira CBMM já demonstraram prototipos de autocarros eléctricos com baterias de óxido de nióbio capazes de recarregar em cerca de dez minutos — uma tecnologia que, se amadurecer comercialmente, poderá abrir uma nova e enorme fonte de procura para o metal, actualmente ainda dominada pela indústria do aço.
Esta combinação de propriedades — leveza, resistência, resistência térmica e condutividade — é o que torna o nióbio um mineral “crítico” nas listas de vários países e blocos económicos, incluindo os Estados Unidos e a União Europeia: um material insubstituível em sectores estratégicos, mas cuja oferta mundial está concentrada em pouquíssimas mãos.
O Brasil: um quase-monopólio geológico e industrial
Nenhum outro caso ilustra melhor essa concentração do que o Brasil. O país detém entre 90% e 98% de todas as reservas mundiais conhecidas de nióbio, segundo diferentes estimativas do sector, um domínio geológico que se traduz também em domínio de mercado: a Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração (CBMM), sediada em Araxá, no Triângulo Mineiro do estado de Minas Gerais, controla sozinha entre 75% e 80% de toda a oferta mundial do metal. A mina da CBMM em Araxá — parte do depósito de Barreiro, com reservas provadas e prováveis estimadas em mais de 500 milhões de toneladas de minério — é considerada o maior jazigo de nióbio do planeta.
Uma segunda produtora brasileira, a CMOC International (antiga China Molybdenum), responsável por cerca de 15% da oferta mundial a partir de operações em Catalão, no estado de Goiás, completa o quase-monopólio brasileiro, que junto ultrapassa os 90% do fornecimento global. Esta concentração é tão extrema que, segundo relatos do sector citados pela imprensa internacional, o mercado de nióbio é pouco líquido e pouco transparente — ao ponto de agências especializadas em preços de metais raros terem, em determinados períodos, dificuldade em publicar cotações fiáveis para o metal, precisamente porque tão poucos actores controlam praticamente toda a oferta e podem, na prática, condicionar os preços.
O Canadá: o outro produtor histórico
O segundo fornecedor mundial é o Canadá, através da mina de Niobec, em Saint-Honoré, na província do Quebeque, actualmente controlada pela empresa Magris Resources. Apesar de a sua quota de mercado ser residual quando comparada com o Brasil, a Niobec é, historicamente, a única grande alternativa ao domínio brasileiro, e a sua existência tem servido, sobretudo para governos ocidentais preocupados com segurança de fornecimento de minerais críticos, como prova de que é geologicamente possível produzir nióbio fora do Brasil em escala comercial relevante — ainda que a um custo e complexidade consideráveis.
Angola: o terceiro nome, e o primeiro africano
É neste cenário de duopólio quase absoluto que a entrada de Angola ganha um significado que ultrapassa em muito a dimensão do próprio projecto de Quilengues. Segundo o ministro Diamantino Azevedo, “quase 90% das reservas conhecidas mundialmente estão num único país, o Brasil, e isso torna-o um mineral crítico para o mundo” — e é precisamente por integrar um mercado tão fechado e tão pouco diversificado geograficamente que a chegada de um terceiro produtor, fora do eixo Brasil-Canadá e pela primeira vez em solo africano, é vista como potencialmente relevante para a segurança de fornecimento global do metal, numa altura em que governos e indústrias em todo o mundo têm procurado activamente reduzir a dependência de fornecedores únicos para minerais estratégicos.
A descoberta do potencial de nióbio em Quilengues remonta a vários anos, tendo sido identificada por professores e estudantes da Faculdade de Ciências angolana. Em 2020, o Governo angolano concedeu a autorização de exploração e entregou a fase de prospecção à sociedade Niobonga — Comércio Geral, empresa de capitais chineses, que já investiu 136,6 milhões de dólares no projecto. Segundo dados oficiais, essa fase de prospecção permitiu já a extracção de 40.000 toneladas de nióbio. A concessão abrange uma área de aproximadamente 400 quilómetros quadrados nas serras da Bonga e da Chivila, com um período inicial de 22 anos, renovável até um máximo de 40 anos de exploração contínua.
Impacto local: empregos, reassentamento e infraestrutura
Para além da dimensão estratégica global, o projecto tem já um impacto concreto na região da Huíla. Segundo o ministro, a exploração criou até ao momento cerca de 1.000 empregos directos e 200 indirectos, com forte participação de jovens da região. A concessão gerou ainda investimentos sociais associados, incluindo a construção de uma escola, habitação para realojamento de populações afectadas e uma albufeira destinada a assegurar o abastecimento de água ao projecto — infraestrutura que, segundo as autoridades, poderá também vir a beneficiar directamente as comunidades locais. O Governo angolano trabalha ainda, em conjunto com o Ministério da Energia e com o investidor do projecto, no fornecimento de energia a partir de fontes hidroeléctricas, com o objectivo declarado de levar também electricidade às populações da região.
A execução do projecto implicou, contudo, a deslocação e o realojamento de 400 famílias, indemnizadas com dois milhões de kwanzas cada — o equivalente a menos de 1.900 euros —, segundo dados das autoridades locais citados pela agência noticiosa angolana Angop.
A entrada no mercado do nióbio surge como mais uma peça na estratégia mais ampla de diversificação mineira que Angola tem procurado desenvolver nos últimos anos, num esforço para reduzir a dependência histórica das receitas petrolíferas. À semelhança do que tem acontecido noutros países africanos ricos em recursos — onde o interesse internacional por minerais críticos como o cobre, o cobalto ou as terras raras tem crescido de forma acentuada, impulsionado pela transição energética e pela procura tecnológica global —, o nióbio de Quilengues coloca Angola, ainda que de forma incipiente, no radar de uma cadeia de fornecimento mundial extremamente concentrada e estrategicamente sensível.
Ainda assim, o ministro Diamantino Azevedo não avançou uma data concreta para o arranque efectivo da exploração comercial, limitando-se a garantir que acontecerá “este ano”. Até lá, o verdadeiro teste para Angola não será apenas extrair o minério, mas conseguir posicionar-se de forma credível junto de uma indústria siderúrgica e aeroespacial internacional habituada, há décadas, a depender quase exclusivamente de dois fornecedores — e que só reconhecerá plenamente o novo entrante quando este demonstrar capacidade de fornecimento estável, qualidade consistente do minério e integração fiável nas cadeias de valor já estabelecidas pelo Brasil e pelo Canadá.
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