Voltar ao Início
Luanda ainda sente o apagão da Unitel, uma semana depois
Uma semana depois do ciberataque à maior operadora angolana, filas intermináveis continuam a formar-se à porta dos bancos da capital, enquanto surgem revelações sobre um alegado pedido de resgate em criptomoedas equivalente ao valor arrecadado com a venda de acções da empresa em Bolsa
O ciberataque à Unitel, na passada terça-feira, ainda provoca constrangimentos nos pagamentos e transferências digitais. Muitos vêem-se obrigados a esperar no banco para aceder a dinheiro físico. Negócios condicionados, matrículas suspensas e dívidas por liquidar estão entre as limitações impostas pela quebra dos pagamentos digitais. Uma semana depois do ataque cibernético à maior operadora angolana de telecomunicações.
Com as transacções electrónicas limitadas, dadas as falhas de comunicações que ainda persistem, muitos luandenses com dificuldades de acesso à Internet acorrem às dependências bancárias para contornar os constrangimentos. Filas intermináveis, sobretudo à entrada de unidades bancárias em vários pontos de Luanda, com cidadãos impacientes para acederem ao interior dos bancos para efectuar depósitos, pagamentos e transferências. Esta é a realidade da capital por estes dias, de acordo com uma reportagem da agência Lusa, em Luanda.
“Não havia necessidade de as pessoas me deverem se a rede estivesse boa”
Defronte a uma dependência bancária, no município de Viana, em Luanda, onde aguardava a sua vez na fila há mais de uma hora para aceder ao balcão, encontrava-se a estudante Madalena Francisco, de 21 anos. Agastada com as “falhas” nas comunicações e nas transacções por via do Multicaixa Express, popular aplicação que permite fazer pagamentos e levantamentos sem cartão, a também comerciante contou que os seus negócios estão paralisados de momento, porque não consegue fazer nem receber pagamentos por via electrónica.
“Os negócios que eu faço estão condicionados, não consigo receber pagamentos e não consigo fazer pagamentos, por exemplo, agora tenho coisas em dívida, ou seja, não havia necessidade de as pessoas me deverem se a rede estivesse boa”, lamentou. Madalena tem igualmente as compras condicionadas: “Porque o meu [Multicaixa] Express não está a funcionar devidamente, dadas as falhas da Unitel, e estou aqui na fila do banco, coisa que eu detesto”, atirou.
O recurso ao dinheiro vivo em detrimento do electrónico está a levar, nos últimos dias, centenas de cidadãos a acorrerem aos bancos, reflexo de que as comunicações electrónicas continuam “instáveis”, disse à Lusa Mauro Machado. O pasteleiro e fotógrafo de 27 anos, cujo trabalho exige o recurso a novas tecnologias de informação, queixou-se de dificuldades para aceder à Internet e utilizar aplicativos de pagamentos. “Então, agora o dinheiro físico chega a ser mais vantajoso, porque conseguimos pagar o que nós quisermos, por isso vim cá ao banco”, disse.
A operadora considerou tratar-se de um ataque “deliberado e malicioso” e garantiu empenho na normalização completa dos serviços, depois de ter sido alvo do ataque informático de 28 de Julho.
Matrículas por fazer e duas horas de fila
A estudante Telma Fernandes contou que as actuais circunstâncias limitam, inclusive, o uso do seu cartão Multicaixa para transacções correntes, pelo que o recurso a um banco para aceder a dinheiro físico é inevitável, nesta fase. “Utilizo mais o dinheiro electrónico, mas, atendendo à circunstância em que nos encontramos devido à quebra da rede, estou a usar mais o dinheiro físico”, referiu, descrevendo ainda dificuldades para utilizar o Multicaixa Express.
“Tinha de fazer alguns pagamentos, algumas matrículas não pude fazer até agora, atendendo à circunstância da rede (…) e estamos aqui na fila do banco a ver se conseguimos tirar [dinheiro] no balcão”, queixou-se Telma, que se encontrava numa longa fila há duas horas.
Já Roberto Segunda, jovem desempregado de 22 anos, relatou “desvantagens” do recurso ao dinheiro electrónico, dadas as “falhas” da Unitel, salientando que se viu “forçado” a acordar cedo para ir ao banco, dadas as “enchentes habituais dos últimos dias”. “Quando há dinheiro electrónico não há necessidade de sair de casa, posso fazer transferências, fazer pagamentos e a compra chega em casa, mas agora a situação complicou”, atirou.
Um resgate exigido em criptomoedas, equivalente ao valor da venda em Bolsa
Enquanto os luandenses continuam a lidar com estes constrangimentos no terreno, surgiram esta semana novos detalhes sobre a possível motivação por detrás do ataque. Segundo revelou a revistaEconomia & Mercado, citando uma fonte da própria empresa, os autores do ataque terão exigido um resgate de 300 mil milhões de kwanzas — cerca de 326,5 milhões de dólares — para desbloquear os sistemas da operadora, um montante correspondente precisamente às receitas obtidas pelo Estado com a venda de 15% das acções da Unitel na Bolsa de Dívida e Valores de Angola (BODIVA).
“Foi um ataque à nossa rede. Invadiram a nossa aplicação para acesso remoto e conseguiram encriptar os nossos dados. Isso está a levar a uma grande intervenção técnica para recuperar o nosso Data Center”, afirmou a fonte, sob condição de anonimato, à revista. Segundo a mesma fonte, os atacantes exigiram que o pagamento fosse feito em criptomoedas, exigência que a administração da Unitel recusou — não havendo, segundo a fonte, indícios de que os hackers tenham conseguido desviar fundos da empresa.
Confrontada com estas revelações, a Unitel veio, entretanto, negar publicamente conhecer o alegado pedido de resgate, afirmando ao jornalO Paísque apenas teve conhecimento dessas informações através de notícias e publicações na Internet, e que a prioridade da empresa, nesta fase, é o restabelecimento completo dos serviços afectados.
O impacto do ataque fez-se sentir igualmente no mercado accionista: as acções da Unitel chegaram a cair quase 13% no segundo dia de negociação na BODIVA, depois de uma estreia marcada por forte valorização inicial — um sinal de como a incerteza gerada pelo incidente também condicionou a confiança dos investidores na fase mais sensível da recém-concluída privatização parcial da operadora.
Uma semana após o ataque cibernético de que foi alvo a Unitel, muitos cidadãos dizem ainda enfrentar enormes constrangimentos para aceder aos serviços electrónicos, num quotidiano em que o regresso ao dinheiro físico — outrora residual — se tornou, para milhares de luandenses, a única forma de garantir que a vida, os negócios e os pagamentos pendentes não param por completo.
Gostou deste artigo?
Partilhe com os seus amigos ou explore mais funcionalidades do Falanga.
Descarregar App Falanga