Voltar ao Início
“Investir não termina na compra de uma acção”, alerta o economista Daniel Sapateiro
Entrada do Standard Bank Angola reforça a dinâmica do mercado de capitais e coloca a literacia financeira, a liquidez e os custos de investimento no centro do debate.
A entrada do Standard Bank Angola na Bolsa de Dívida e Valores de Angola (BODIVA) marca uma nova etapa do mercado de capitais. A operação atraiu milhares de investidores e reforçou o interesse pelas acções. Mas, para o economista Daniel Sapateiro, o crescimento da bolsa exige mais do que compradores; exige investidores capazes de compreender os riscos, calcular os custos e, sobretudo, saber quando e em que condições podem vender.
A estreia do banco, a 30 de Setembro, resultou na admissão da 7.ª empresa ao mercado accionista da BODIVA e na entrada de 6.215 novos accionistas. A oferta pública de venda movimentou 208,5 mil milhões de Kwanzas e registou uma procura 81,96% superior à quantidade disponibilizada.
O movimento surge na sequência de uma expansão do mercado que passou a reunir empresas como o Banco Angolano de Investimentos (BAI), o Banco Caixa Geral Angola (BCGA), a ENSA, o Banco de Fomento Angola (BFA), a UNITEL e, agora, o Standard Bank Angola. A entrada destas sociedades amplia as possibilidades de investimento, mas também aumenta a necessidade de informação e educação financeira.
Para Daniel Sapateiro, presidente do Colégio de Especialidade das Finanças da Ordem dos Economistas de Angola, a primeira compra não deve ser encarada como o fim do processo. “Investir não termina na compra de uma acção”, alerta o economista.
A advertência ganha importância num mercado em que muitos participantes podem estar a investir pela primeira vez. O preço de compra é apenas uma parte da equação. Comissões de intermediação, liquidação, custódia e impostos podem reduzir o ganho efectivo, observa.
Uma carteira que passe de 500 mil para 600 mil kwanzas, por exemplo, regista uma valorização de 100 mil kwanzas. Mas o lucro, segundo Sapateiro, só se concretiza quando os títulos são vendidos, descontados os encargos aplicáveis.
É na saída que surge um dos desafios menos compreendidos pelos investidores iniciantes: a liquidez. Uma acção cotada não significa que exista sempre um comprador disponível ao preço pretendido, aponta.
Elucida que se um accionista quiser vender por 60 mil kwanzas um título para o qual a procura se situa nos 58 mil, terá de decidir se aceita o preço disponível ou mantém a ordem à espera de melhores condições. Pode também não encontrar compradores para toda a quantidade que pretende vender.
“Antes de comprar, o investidor deve pensar também na saída”, defende Daniel Sapateiro. A questão, sublinha, não é apenas quanto se pode ganhar, mas também se haverá mercado suficiente para vender quando for necessário.
A fiscalidade e os custos de transacção completam a análise. Para o economista, o cálculo da rentabilidade deve partir do valor da venda, subtrair o custo de aquisição e os encargos associados, considerando ainda os impostos aplicáveis. A valorização apresentada pela cotação não equivale, necessariamente, ao dinheiro que chega à conta do investidor.
A nova dinâmica da BODIVA coloca, assim, um desafio que ultrapassa o aumento do número de empresas cotadas, assinala, referindo que o mercado precisa de atrair capital, mas também de reforçar a transparência, a informação disponível e a capacidade dos investidores para interpretar os movimentos das acções.
A experiência das empresas cotadas pode ajudar a transformar a educação financeira em aprendizagem prática. A divulgação de resultados, riscos e estratégias empresariais permite acompanhar o desempenho dos emitentes. Já a informação sobre ordens de compra e venda, salienta, ajuda a compreender como se formam os preços e por que razão uma cotação não garante uma transacção imediata.
A mensagem de Daniel Sapateiro é clara: a entrada na bolsa deve ser acompanhada de conhecimento sobre informação, custos, risco, liquidez e fiscalidade: “A primeira compra pode representar a entrada de um cidadão no mercado de capitais. A primeira venda, por sua vez, mostra se compreendeu verdadeiramente como esse mercado funciona”.
Realça que, com a chegada de novos accionistas, o desafio da BODIVA passa por converter o interesse inicial em participação informada e sustentável. Porque, para o economista, uma bolsa mais dinâmica não depende apenas de quem compra, mas também da confiança de quem precisa de vender.
Gostou deste artigo?
Partilhe com os seus amigos ou explore mais funcionalidades do Falanga.
Descarregar App Falanga